sábado, 13 de dezembro de 2014

Nó dos Caminhos Abandonados


A vida é um palco e parte dela é vivida atrás das cortinas. Ocasionalmente a cortina ameaça subir, outras vezes somos nós que puxamos as cordinhas. E assim como qualquer espetáculo, possui o seu público, seu desafio e sua expectativa pesada nos cercando por todos os lados e ameaçando nos esmagar.

Dessa vez a cortina subiria por suas cordinhas puxadas, e no breve momento antes do espetáculo, só houve tempo de ajeitar a barra da saia, balançar o cabelo e espanar a poeirinha do sapato de veludo. Na platéia, o burburinho aumentava conforme as pessoas chegavam, tão esmagador quanto a própria expectativa da estréia.

O teatro é repleto de fantasmas, rondando em busca de uma oportunidade de fazer estrago. Muitas coisas podem dar errado, as pessoas podem não se interessar pela temática, o figurino pode aparecer misteriosamente picotado como bandeirinhas de festa junina, o cenário pode desabar ou a protagonista pode amanhecer sem voz. De todas elas, a pior é perder o coadjuvante. O artista que contracenaria com a atriz principal quebra a perna, fica doente, simplesmente não existe ou pior ainda, desiste.

E assim era o palco que havia escolhido. Mais mal-assombrado que certo castelo em algum lugar da Pensilvânia, os fantasmas rodeavam o ambiente como urubus à espera da refeição. Atores entraram em colapso nervoso e foram embora, peças do cenário estavam se desfazendo e o roteiro estava incompleto. Por Deus! Como alguém pode se apresentar desse jeito? É muito fácil esquecer o nome da peça, ou quem é a protagonista, mas o objetivo deve ser anotado, lembrado e revisado. Chegar ao fim e ver o sentido nas decisões tomadas, entender a trama de caminhos traçados e o nó dos caminhos abandonados.

A cortina subiu, o cenário ruiu e o coadjuvante não estava lá. Não havia roteiro e a estrada de tijolos amarelos tinha um buraco no meio. E enquanto a indecisão apertava o peito da atriz, sufocando seus pensamentos, a platéia observava. Dois ou três críticos bem à frente tomavam notas para suas respeitáveis colunas semanais no caderno de artes, com os olhos afiados em busca do erro fatal que conduziria sua carreira às alturas. As palavras presas dançavam pelo palco livres, sem um único elo que as tornassem coerentes. Respirou fundo.

O diretor da sua história tinha feito um péssimo trabalho. Nenhum roteiro terminado, nenhum cenário preparado, nenhum ator contratado. Anos de preparação e não tinha nada. Pelo menos seu sapato de veludo estava limpo e a barra da saia estava alinhada. Seu cérebro funcionava e o sangue circulava. Colocou óleo nas engrenagens, demitiu seu empresário e chutou o diretor. A partir de agora, seria sua própria roteirista. Afinal, se a vida é uma comédia, então queria poder rir também.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...